A Palavra de Deus que nos é proposta neste último Domingo do ano litúrgico convida-nos a tomar consciência da realeza de Jesus; deixa claro, no entanto, que essa realeza não pode ser entendida à maneira dos reis deste mundo: é uma realeza que se concretiza de acordo com uma lógica própria, a lógica de Deus. O Evangelho, especialmente, explica qual é a lógica da realeza de Jesus.A primeira leitura anuncia que Deus vai intervir no mundo, a fim de eliminar a crueza, a ambição, a violência, a opressão que marcam a história dos reinos humanos. Através de um "filho de homem" que vai aparecer "sobre as nuvens", Deus vai devolver à história a sua dimensão de "humanidade", possibilitando que os homens sejam livres e vivam na paz e na tranquilidade. Os cristãos verão nesse "filho de homem" vitorioso um anúncio da realeza de Jesus.Na segunda leitura, o autor do Livro do Apocalipse apresenta Jesus como o Senhor do Tempo e da História, o princípio e o fim de todas as coisas, o "príncipe dos reis da terra", aquele que há-de vir "por entre as nuvens" cheio de poder, de glória e de majestade para instaurar um reino definitivo de felicidade, de vida e de paz. É, precisamente, a interpretação cristã dessa figura de "filho de homem" de que falava a primeira leitura.O Evangelho apresenta-nos, num quadro dramático, Jesus a assumir a sua condição de rei diante de Pôncio Pilatos. A cena revela, contudo, que a realeza reivindicada por Jesus não assenta em esquemas de ambição, de poder, de autoridade, de violência, como acontece com os reis da terra. A missão "real" de Jesus é dar "testemunho da verdade"; e concretiza-se no amor, no serviço, no perdão, na partilha, no dom da vida.
segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
Gratidão e dor por João Paulo II...
Se procurasse a própria glória não mostraria o seu rosto contorcido.
O Santo Padre o Papa João Paulo II completou a tarefa que Deus lhe confiou. Volta agora para a casa do Pai com a certeza de ter cumprido sua missão.
A dor pela sua ausência é tão grande quanto a gratidão pela sua vida, pela sua presença que foi uma bênção para a Igreja e para o mundo. A Igreja vive uma certeza maior de sua missão, graças ao testemunho do Santo Padre. E o mundo também, porque ele soube valorizar cada pessoa humana, pela sua dignidade de filho de Deus, diferente da concepção dominante que mede o homem pelas capacidades e condições já possuídas, e, que por isso, nega dignidade aos mais fracos e aos mais necessitados de ajuda.
As manifestações de afeto e as homenagens que lhe são prestadas no mundo inteiro, ultrapassando os limites das comunidades católicas, atestam a grandeza de sua personalidade. Cada pessoa lembra com entusiasmo algum ponto saliente do seu caráter, percebe algum valor particular dos seus muitos dons.
Mas, acima de tudo, cabe lembrar a figura de uma testemunha, que deu a vida pela paixão que o movia interiormente, a paixão por Jesus Cristo e por sua Igreja. A infatigável jornada de sua vida viajando pelos mais diversos países, a vontade de utilizar até o último suspiro de sua existência para a gloria de Cristo, documentam a entrega deste homem ao desígnio misterioso de Deus, fazendo-se obediente até a morte. Se procurasse a própria glória não mostraria o seu rosto contorcido pela doença e pela dor.
Não teve receio de mostrar sua fragilidade porque, mesmo em condições físicas deploráveis, apontava para Jesus Cristo como o Salvador, o Redentor. As últimas palavras que ele escrevera, para que fossem lidas no 2o domingo de Páscoa falam da misericórdia de Deus e da vitória de Cristo sobre o mal, mesmo quando, como em nossa época, tudo parece dizer que o mal vence. Em todo o mundo, assim como no próprio corpo, só em aparência o mal é vitorioso, porque o Amor de Deus é maior, Cristo vence.
Em cada discurso, em cada encontro, demonstrava uma estima pelo humano, por cada homem concreto. Ele sempre apontou o cristianismo como o caminho para a realização da felicidade do homem, para viver na liberdade, para lutar pela justiça, para conseguir a paz.
No mundo, conturbado por muitas formas de violências, de conflitos, de terrorismos – desafios imensos para a Igreja e para os governantes - João Paulo II alternava mediação e profecia, mas sempre se porta-voz das melhores mensagens de amor e de paz, a mensagem provocadora do Evangelho que o amor vence o ódio, o bem vence o mal, a vida vence a morte. E procurou explicar sua posição de fé, servindo-se de uma bem fundamentada racionalidade.
Muitas vezes o Papa nos lembrou, em seus discursos e em seus escritos, que o homem se realiza somente no amor, encontra a satisfação mais plena e duradoura somente no amor. Teve o cuidado de esclarecer, no entanto, que para ser amor, deve ser dom sincero de si mesmo para o bem, para a felicidade de outrem. Entre marido e mulher, entre amigo e amigo, nas comunidades pequenas ou grandes, na convivência social, no convívio entre os povos, este é o caminho para vencer a agressividade, para derrotar a violência, para abrir as portas para a paz. E apontava o exemplo de Jesus, especialmente na cruz, quando deu sua vida para o bem, para a felicidade de outros, inclusive de quem O estava crucificando.
Não é difícil reconhecer que esta postura de amor, entendido como dom sincero de si mesmo para o bem dos outros, orientou cada passo do Papa, tornando-se mais que um discurso, o testemunho mais valioso de sua existência.
Saiu peregrinando pelo mundo procurando a aproximação com outras religiões, a compreensão entre os diversos líderes políticos, tentando evitar conflitos, acreditando sempre na possibilidade do entendimento, da vitória da razão, e do amor ao bem sobre os cálculos e sobre os ódios.
Nesse sentido, pode-se reconhecer um estreito entrelaçamento entre o magistério pontifício, o que ele nos ensinou através dos documentos e dos discursos realizados nos 27 anos de pontificado e sua concreta maneira de viver. Reflexão e testemunho fundem-se nele numa coisa só e, certamente, esta é uma das razões que explicam o fascínio de sua personalidade.
Quando sofreu o atentado, em 1981, na praça de São Pedro, seu sangue derramado lembrou os mártires que pagavam com a vida o testemunho de Cristo, que incomodava aos poderosos do momento. Era o dia 13 de maio, festa de Nossa Senhora de Fátima, e o Santo Padre atribuiu à sua proteção a preservação de sua vida. Foi grande a comoção do mundo ao vê-lo perdoar e abraçar o homem que tentou assassiná-lo. Fala ao nosso coração e nos provoca a seguir o seu exemplo, segundo as palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos perseguem”.
Nas viagens pelo Brasil, estabeleceu com o povo sintonia e recíproca simpatia suscitando admiração de todos. “João de Deus” foi amado e aplaudido em todas as cidades por onde passou, não como manifestação do folclore religioso local, mas como o reconhecimento de uma presença humana extraordinária, através da qual o próprio Cristo ressuscitado se faz presente em nosso tempo.
O Santo Padre realizou finalmente a última grande viagem, de volta para o Pai! De maneira tão forte participou na terra da cruz de Cristo; certamente vai participar da sua glória. Queremos acompanhá-lo nesta hora com a oração, com o coração comovido e dolorido, com gratidão e com a certeza de que a vitória de Cristo sobre a morte o conduz para a feliz morada eterna.
Consideremos os seus ensinamentos, para compreender melhor o seu significado, a fim de aprender a grandeza que admiramos. É difícil imitar os heróis; os santos, porém, apresentam um caminho possível para cada um. O Santo Padre, então, nos convida para segui-lo na santidade da entrega total a Cristo, onde se encontra a plena realização humana.
É o que celebramos na Solenidade da Anunciação do Senhor para a qual o Padre havia preparado uma mensagem: “A solenidade litúrgica da Anunciação que celebramos nos leva a contemplar com os olhos de Maria o imenso mistério do amor misericordioso que brota do Coração de Cristo. Ajudados por Ela possamos compreender o sentido verdadeiro da alegria pascal, que se funda sobre esta certeza: aquele que a Virgem trouxe em seu seio, que sofreu e morreu por nós, ressuscitou verdadeiramente.
Aleluia!”. E ressuscitou também para nós: para cada homem, para o Santo Padre!
Não é verdadeiramente cristão dizer que “perdemos o Santo Padre”. Com a sua morte, com a sua chegada à casa paterna, nós “ganhamos um intercessor!” Descanse em paz o Santo e Amado Padre!
Arcebispo de Salvador e Presidente da CNBB
Eles deitaram no tesouro do que lhes sobejava...

Não desprezemos os pobres, os pequenos [...]; para além de serem nossos irmãos em Deus, são os que imitam mais perfeitamente Jesus na Sua vida exterior. Eles representam perfeitamente Jesus, o operário de Nazaré. Eles são os anciãos entre os eleitos, os primeiros a ser chamados ao berço do Salvador. Eles foram os companheiros habituais de Jesus, do Seu nascimento até à morte; a eles pertenciam Maria e José e os apóstolos. [...] Longe de os desprezar, honremo-los, honremos neles a imagem de Jesus e dos Seus santos pais; em lugar de os desdenhar, admiremo-los. [...] Imitemo-los e, dado que vemos que a sua condição é a melhor, aquela que Jesus escolheu para Si mesmo, para os seus, aquela que chamou em primeiro lugar para junto do Seu berço, aquela que Ele mostrou pelos Seus actos e palavras [...], abracemo-la. [...] Sejamos pobres operários como Ele, como Maria, José, os apóstolos, os pastores, e se algum dia Ele nos chamar para o apostolado, permaneçamos nesta vida tão pobres como Ele nela permaneceu, tão pobres como nela ficou um São Paulo «o seu fiel imitador» (cf 1Cor 11, 1).
Não deixemos nunca de ser em tudo pobres, irmãos dos pobres, companheiros dos pobres, sejamos os mais pobres dos pobres como Jesus, e como Ele amemos os pobres e rodeemo-nos deles.
Evangelho segundo S. Lucas 21,1-4.

Levantando os olhos, Jesus viu os ricos deitarem no cofre do tesouro as suas ofertas. Viu também uma viúva pobre deitar lá duas moedinhas e disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros; pois eles deitaram no tesouro do que lhes sobejava, enquanto ela, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para viver.»
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